mais respostas às (minhas) inquietações

By sufragista - maio 10, 2018


"(...) Boa parte da minha geração acomodou-se, tornou-se conservadora. Reage mal à ideia de feminismo. Reage mal à ideia de mudar de boas maneiras, de hábitos, para acomodar minorias. Reage mal à «revelação» do papel central do nosso país nessas coisas de conquista, escravatura, etc.

Reage mal à ideia que a cultura muda. Que não se está a moralizar a cultura. A cultura que defendem contra o politicamente correcto também era uma forma muito forte de moralidade. A ideia que as mulheres são musas, objectos do desejo, etc. A ideia do génio criativo, bruto, autor, total. E homem. E outras tantas ideias feitas.

Reage mal à mudança, nem sequer se pergunta se é boa ou má antes de decidir. Porquê deixar de dizer Descobrimentos? Porquê não dizer Mariconço? Porquê não associar cor de rosa a raparigas? Porquê não achar que a domesticidade é naturalmente feminina? Porquê deixou de ser o Woody Allen um humorista sofisticado para ser também um grunho? Nem sabem, nem querem sequer responder a isso. É tudo censura e ameaça e estalinismo.

O reverso da moeda é que se perde a capacidade para apreciar o que aí vem. Produz-se crítica literária a avisar que tal livro não agradará a quem não gosta do politicamente correcto. Gasta-se metade de uma crítica de cinema a denunciar a importância excessiva de um filme em termos de identidade negra, feminina, gay.

Já não foi a primeira vez nem será a última que se muda de critério, que se muda de estética, e há facções que se chocam.

Lembrei-me disso tudo quando vi o vídeo abaixo que é brilhante e calculo que totalmente incompreensível para um monte de gente, as pessoas acima sobretudo. Para elas será só mais outra infiltração do politicamente correcto."


texto do Mário Moura publicado em 7.05.2018 no Facebook

  • Share:

0 comments