Delicadezas

pétalas nas árvores

Ficarmos
ocos
por dentro
nunca é
uma opção.

É um desvio.


É para ficarmos
a saber
que o amor
nos rouba (sempre)
à poesia.


Junho 2015

Delicadezas

saudade

Depois de te deixar
voltei a fotografar as mesmas
imagens que conhecia antes
de saber
quem eras.

Será que nunca soube
de ti
por causa das imagens
velhas?


Junho 2015

Delicadezas

la géode

Até os olhos,
depois de te deixar,
são mais
fáceis agora
e sem
aquela tristeza
que era da
indiferença.

Junho 2015

Delicadezas

quadro

E os gestos
infinitos
sempre os mesmos,
a serem agora
revistos
pela mãos
novas que fiz.

Junho 2015

Delicadezas

wood

E as falas claras e concisas
das conversas
a ficarem para trás,
só um susurro
entre-dentes
no passado.

Junho 2015

Delicadezas

shadow

Até o meu cabelo, apostado em
não crescer
anos a fio
parecia brotar
do cucuruto, e da nuca,
louco em longuras
depois que te deixei.

Junho 2015

Delicadezas

bed light

Se acordo
de um sopro,
adormeces
naquele
segundo emprestado.

O amor só
suga
o único ar intransmissível.

Junho 2015

Delicadezas

last xmas

Saber aquilo que me
mirrava
no peito
mas também no centro
do coração:
uma estrela
tão grande que
crescia sem pontas,
só brilho.

Junho 2015

Delicadezas

uma luz

A saber:
a perda, tal como
um homem
é uma coisa sozinha
sem dono. A tê-la,
nossa,
é também
de sofrer sozinhos.

Nunca partilhamos as perdas,
nem as partidas.
Só o fôlego
desse intervalo magro
entre largar a mão
da tua presença.

Junho 2015

Rua do Torno

"És Rua do Torno? Rua do Casal? O refrão diz não, não, não, não."


O teu nome é uma daquelas coisas que se perde em tradução.
De sangue rosa azulado em nobreza e não só mesa, tecto, colchão.

O meu nome foi só outra coisa rabiscado na parede, a tua lousa.
De aparatoso há quem o ache piroso mas tu também és cor-de-rosa.

E é rosa de cheiro? É rosa de gládio? Botão de betão?
Não, não, não, não, não...

Recordações são palavrões nortenhos, asneiras banalizadas.
O meu vernáculo é o do habitáculo das 13 assoalhadas.

Recordações da casa cor-de-rosa. Estás colmatosa, eu adormeci.
Vais devoluta e eu não estou de volta, mas ainda acordo em ti.

És rua do Tordo? Rua do Casal? O refrão diz
Não, não, não, não, não...


Samuel Úria,
Rua da Fonte Nova 171

da Tradição e do Autêntico

(...) É tradicional aquilo que se diz que é para os efeitos pelos quais se diz que é e porquê. É uma definição como outra qualquer. Serve ao mesmo tempo para falar das coisas e, sobretudo, a partir das coisas na demanda de outros assuntos que assim se vão insinuando. Quando alguém quer dizer a alguém que a sua condição é um pouco mais sofisticada, dir-lhe-á, por exemplo, sabes, descobri este lenço naquela loja muito antiga, muito tradicional que há naquela rua onde ninguém vai. O outro, se perceber, responder-lhe-á, sim, sim já sei, é aquela loja que compra os restos de colecção da Zara. E pronto. Diz-se também que o tradicional é autêntico. Outra vaca no milho. Autêntico é tudo o que existe porque basta isso para lhe atestar a autenticidade, seja uma falsificação de uma pintura conhecida, seja um porta-chaves com o Monstro do Lago Negro.

Álvaro Domingues
Casa Oriental: Chá, Café e Chocolate